21/03/2018

Campo Mourão e a Lenda do Capitão Índio Bandeira


 
Foto atribuída ao Índio Bandeira 
Acervo de Joaquim Xavier do Rego

Nosso avô Rodolfo Bathke esteve em Campo Mourão em 1937 a convite do seu cunhado Francisco Ferreira Albuquerque (Tio Chico) que chegou em junho de 1936 e era irmão da nossa avó Idalina Ferreira. 
Do tempo que esteve por estas bandas, nos contava que o matreiro Índio Bandeira era tão 'capitão' quanto Guilherme de Paula Xavier era 'coronel'. Esses títulos tinham nada a ver com militarismo. Dava-se, por exemplo, a quem conhecia bem os caminhos do sertão: 'capitão do mato', ou a quem possuía grandes posses e poderes políticos: 'coronel'.
O cacique Capitão Índio Bandeira tinha sua taba no chamado Campo do Abarrancamento onde mantinha e comandava sua pequena tribo de kaingangues, região hoje conhecida por Campo Bandeira, entre os rios do Campo e da Várzea.
Por ali passava uma estradinha primitiva, um ramal do caminho do Peaberu, que seguia por Corumbataí do Sul até Fênix - nos dois sentidos -  inclusive por Campo Mourão e pelo vale do Ivai/Piquiri afora.
No trecho que cortava por frente do seu arranchamento ele colocou (enterrou) dois grossos mourões de madeira de cerne da altura de uma pessoa, um de cada lado do estreito trajeto e, dos viageiros que por ali passavam, cobrava ‘pedágio’ em dinheiro ou espécies. Fazia qualquer negócio para levar vantagem. 
O local passou a ser ponto de referência e conhecido por: Campo dos Mourões e, até se comentava naqueles tempos, que veio daí o nome do Município quando, de fato, sabemos que a verdade é outra.

    -  Oh Vô. O senhor alguma vez passou por ali e pagou?
-  Não. Nunca fui para aqueles lados, mas sei que atravessava o Rio do Campo do lado de cá... o Rio da Várzea do lado de lá e saia no Bairro dos Inácios... seguia por Bourbonia, Cantinho do Céu, Pocinho, Corumbataí do Sul, Rio Lontra, Barbosa Ferraz... até a Vila Rica do Espírito Santo (Fênix)  pelo chamado Caminho dos Padres, dos Íncas e Pe abe y u dos Guaranis.

 
Não havia estradas e os rios de Campo Mourão não tinham pontes

-  É verdade que ele cobrava até para dar informações?
-  É verdade. O destemido sertanejo Jozé Luiz Pereira nos contou que procurava os Campos do Mourão  vindo de Pitanga com sua tropa... se desviou da rota e foi barrado pela cheia do Rio da Várzea (Vargem, nome dado por ele) e, à margem direita, ali mesmo, se obrigou a parar e acampar. 
Choveu muito por dias a fio e os mantimentos emboloraram quase todos devido a grande quantidade de água que caia e pela demora da chuvarada parar quando, do nada, apareceu o Índio Bandeira acompanhado de alguns bugres. 
Conversaram pouco e Jozé Luis Pereira perguntou em que direção ficava Campos do Mourão.
O índio respondeu evasivamente, com cara de paisagem:  
- Fica praaa láaaa do Campo do Abarrancamento.
- Você pode nos indicar o rumo ou nos levar até lá?
- Posso, mas só se pagar!
-Estamos quase passando fome. Não temos dinheiro nem    alimento pra lhe dar!
 
  
  O índio, então, ergueu o braço esquerdo estendido e falou:
   - Esse campo que procura, é praaa láaaa !! Apontou em direção oposta porque viu que ali não lhe renderia nada. Virou as costas e por onde apareceu, sumiu com seus 'guerreiros'.
   A comitiva depauperada, no primeiro dia de sol, levantou acampamento e retornou à Pitanga para se reabastecer. Partiram bem cedinho, no raiar de um dia carregado de nuvens ameaçadoras.

 
Céu carrancudo em Campo Mourão
(Acervo Salete Brito)

- Veja bem. Essa tinha sido a segunda tentativa, mas foi só na terceira que os Pereira chegaram aos Campos do Mourão, nesta feita pelo Picadão da Pitanga, aberto sobre o Caminho do Peaberu (BR-158). Veio a cavalo e dois carros-de-boi, em 16 de setembro de 1903, em onze pessoas, concluiu o grande alemão Germano Francisco Rodolfo Bathke - nosso inesquecível avô - que é perpetuado por nominar umas das principais avenidas do Jardim Santa Cruz/Batel, de Campo Mourão – PR. 

A imagem pode conter: 1 pessoa, céu e atividades ao ar livre 

Amigo do Comendador - O Índio Bandeira, que denomina a principal avenida de Campo Mourão, já habitava a região quando vieram os pioneiros. Ele próprio se empenhava para que os ‘brancos’ viessem morar aqui, criar gado, fazer roças e erguer uma cidade.  
Seu principal amigo era o Comendador  Norberto Marcondes (nome de avenida em Campo Mourão) nascido em Palmas – PR,  onde foi batizado Norberto Mendes Cordeiro. O nobre senhor visitou a região dos Campos do Mourão entre 1880 e 1883, época que chegou a registrar um quinhão de terra no Cartório de Imóveis de Guarapuava em seu nome, mas nunca tomou  posse ou fez morada nestes campos.

Imagem relacionada 
Marcondes recebeu o titulo de comendador e a medalha da Ordem das Rosas justamente pelo trabalho benemérito de amansador e protetor de índios, desde Guarapuava até os sertões além Tibagi e do intrincado Oeste e Centro Oeste do Paraná. 
A significativa honraria lhe foi entregue pelo Imperador Dom Pedro II durante jantar da corte palaciana em Petrópolis - RJ, oportunidade em que foram narradas suas destemidas façanhas junto aos nativos de grande parte do Estado do Paraná, aos quais ele dava o nome de bugres (índios mansos).


Meus avós: Idalina e Rodolfo. Minha mãe Conceição Vera 
e meu irmão Rubens Bathke, em Balsa Nova - PR

O filho do nosso bisavô Wilhelme (Guilherme) Bathke - nome de rua em Balsa Nova - não se aventurou a vir morar no desértico Campos do Mourão da época e retornou a Balsa Nova onde era colono e tinha sua chácara que produzia de tudo; era dono de açougue e fornecedor de lenha para a estrada de ferro RVPSC. Somente em 1950 é que veio residir aqui a pedido do seu filho, o escrivão do crime e viúvo Ville Bathke. 
Vô Rodolfo adotou Campo Mourão e os netos, até sua morte e descansa no Cemitério Municipal São Judas Tadeu, na derradeira morada dos Bathke.

 
Cemitério de Campo Mourão